Sérgio, na rua beirando o rio, perpendicular a de sua mãe, passou e levou, ao ver Neyde, de shortinho do pijama se ajeitando pra sentar no degrau da porta, ao lado de uma criança. Parar ele não parou, só o tempo por um instante descompassou para ele fotografar um momento da bela, e, para mudar o curso de sua vida.
Voltou, atravessou a rua, puxou assunto, logo Neyde abriu o largo sorriso e dilatou o coração de Sérgio, como ele costumava dizer, sobre a pretinha com quem se casaria com o consentimento do pai e de sua irmãzinha.
Ele, com um pé no degrau: - tudo bem?
- Já comeu?
- Não!
- Entra… Já pra dentro menina!
- Aaah…
- Senta…
- Tá!
- Vou fazer os pratos…
- Quem é você?...
- Deixa ele, aqui o seu…
- Já lavou a mão?
- Jaaaá!...
- Sei, viu… Come!
- Oremos… Amém!
- Bom apetite!
- Igual… Aceita se casar comigo?
- Deus te dê uma boa sorte, meu filho, disse sua mãe fazendo o sinal da Cruz na testa.
Casaram e, por ali mesmo, na casa do sogro, moraram nos três anos que nasceram os três filhos.
A mãe de Lady neste ínterim morreu e Sérgio achou melhor sair do aluguel e morar e cuidar dos bens da esposa.
Tudo por causa da enchente que arrastou a ponte, a passarela e o pai afogado, bem na época do time campeão e a padaria da santa mudar de direção.
As crianças cresceram, casaram, e cada uma, dois ou três filhos e filhas tiveram, deram netos a Sérgio e a Dengosa.
Reencontrei Sérgio na casa da mãe dele, passando em frente, olho pela janela de vidro e de soslaio achei ser ele, titubeei entre não incomodar ou não me reconhecer, voltei e ele na hora se lembrou.
No fundamental tivemos um atrito pela bolsa que ele tinha ganhado ou comprado uma coisa assim, e sugeri, não, não foi sugestão, senão não teríamos deixado de conversar e desengajar a nossa amizade. O acompanhei de longe até ele se mudar com sua beldade.
Interessante as coisas ocuparem espaços vazios tipo usucapião e só mudarem, serem expulsas, quando o próprio dono dá um destino a elas, porque enquanto não damos um basta, ficam ali tendo vida própria para quem passa e vê, aparentemente, tudo ajeitadinho.
Daí mandou eu entrar, ele estava lavando louça e continuou assim enquanto a gente conversava.
Todos em volta sorriram para mim e comentavam entre si, uma criança gritou “lavando louça”, ri pela espontaneidade, outras me reconheceram de algum modo e me acenaram.
Ele me contou de sua por alto desde quando se mudou, e, agora, de novo na mãe para cuidar do que herdou.
- Bem-vindo de volta, disse a ele com um afago no ombro.
- Cê lembra de quando ganhei aquela bolsa na quinta série?
- Não só lembro, respondi com um aperto no coração fechando os olhos, nunca mais fui o mesmo…
Respeitar a vontade de uma pessoa é um bem maior. Por conta daquele transbordo mudei de cadeira na sala de aula e cada um seguiu o seu caminho.
A casa estava cheia. Um outro casal conhecido junto com a filha passaram em frente, pararam um instante e cumprimentando Sérgio, me olharam, sorriram, mas confessei não lembrar até que um traço me despertou um nome e de supetão, disse:
- Chester?
- Sim, como vai?
- Bem também, quanto tempo, hein…
Conversamos todos mais algumas coisas dali do bairro, mudanças e transformações da vida.
Sérgio preparou o almoço dividindo uma cerveja comigo, não fiquei pro almoço:
- Deixa para uma próxima, disse a Neyde, tambor do meu coração, acenando já de longe.
Uma das crianças veio correndo, pegou na minha mão e me acompanhou até a porta.
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