Pular para o conteúdo principal

Deu O Pé

Aí ela disse talvez, foi nessa que embarcou, essa moça do pé dançava com ele e com todos, eram de uma escola de dança e faziam bico acompanhando uma banda. Nessa época aprendeu a dançar samba tintim por tintim, pé por pé, conversavam o trivial, trocavam olhares sorrisos e biquinhos quando acertavam o passo, mais nada além, até a viagem de volta.
Reparou sim, não teve como, foi de supetão, “olhe os pés”, olhou e foi olhando, olhando e quanta coisa havia em comum, até por serem do mesmo solo gentil. Depois de ver o pé foi atrás de outras partes e viu muita coisa, inclusive antigas declarações crônicas, opiniões e posições, um ponto de vista muito, ao menos lhe pareceu muito, só, que é onde a morte nos encontra, a solidão apavora e a liberdade começa em brados retumbantes, entalados difíceis de engolir, de deixar pra depois, naquele canto, regato, espaço vazio, solo fértil para solitude, é onde também ele se encontra, derrame de pai, demência de mãe, e, pra começar, parte dali pro abraço, pra reparar, contemplar, olhando pro lado, ela mirando na mesma direção, reflexão, cuidados e reparos, só não está mais a seus pés, assim como aos pés mãos cabeça e costas castigadas de Cristo, que lembram a cruz e o poder dolorido pesado injusto e belo agradável perfeito como toda paixão, assim como na web os caminhos se encontram bifurcam cruzam, alguns jardins florescem, outros secam, outros são semeados, os que se fortalecem e frutificam, inspiram outros dispostos a compartilhar trocar enamorar.
Essas pessoas são curiosas, por isto os conselhos se “não sabe nada, morre afogada por mim”, “não vá se perder no meu mundo”, porque de uma forma ou de outra o inconsciente, a projeção fácil de tropeçar, se confundir, dar nó cego, se é curioso fica até certo ponto, atento a tudo assim foi e procurou se manter, cada oi e gesto encontro, eram dichavados não só para analisar, mas dar aquela espremida gostosa, gota a gota, aquele chorinho, último golinho no fundo do copo xícara taça, aquela escavada mais funda até o tutano pra ver do que é feito, se encontra Deus lá fundo, por trás do detrás, das vestes aparência véu, outro estalo quentinho da alteridade, o resultado de algo alterado, se se alterou de forma espontânea ou arbitrária ou com o tempo espaço onda, na cristandade até que se salve, a alteração de rota conduta postura, uma visão de volta ao propósito, a graça.

Ele sabia, sabia que aquele pé bem calçado, exposto de forma mais discreta, querendo escapar da barra da calça, pisando pelo calcanhar se sobressaindo, para se exibir por inteiro não era por acaso, é por ali, é por baixo, não por trás ou pela frente ou por cima, só por baixo, bem embaixo, se beijar com consentimento vá lá, saiba que é por lá e não é fetiche, ou, que seja tara ou obsessão, sendo por ali, ao menos pra muitas, vê que é importante a questão dos pés, talvez o mais inquietante fascínio, a feminilidade escoando por ali, assim como o coque, alerta um guru, pode até estar de paletó ou farda, armadura ou nua, vai saltar aos olhos os pés bem calçado, o cabelo preso, vai ser gritante o que tiver de fêmea nela e, ao mesmo tempo, tão sutil, tão afiado o corte na realidade e, ao momento, que se repara a beleza se impondo e ponto, para tudo, repara e respira e vê o que é melhor continuar fazendo por fazer até voltar a si, enfim, porque senão fica ali bobo, cara de besta, babando hipnotizado tolo, embevecido com aquela chaga, falta doída, noção do nada e tudo o que não se pode fazer ou ter, pra que estanque o martírio, lágrima, rio de bálsamo, antídoto, prazer.

Sobrou o pé dela, só, só pra um farroupilha morrer de inveja, passou, foi mal, um suador, um tesão nunca antes sentido, beijou, massageou, beliscou e mordiscou ele, na janela do ônibus entre a cortina e o vidro, ele nas duas poltronas só, o amigo no banco da frente, tudo escuro na estrada, as luzes dos postes na cidade e quando chegaram ainda recebeu um, gostei de ter ficado com você, legal, até uma próxima então, nada tenho namorado e não vai acontecer de novo.

Adorou clamar e orar pra que não se desvie, peque, enfeie, por não possuí-la, tamanha a vontade, mas para que continue assim ao menos na eternidade, sempre única a te redimir.

Caco Lessa

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Presente

​ Teu nome, seu nome: tal é o meu apego não das circunstâncias dos fatos, momentos outros nomes, só o seu teu nome não esqueço. Tua presença, sua presença: sentença muda crença, sem desavença a graça por onde passa quando quer, me laça caça, acha me cura .

Na Mandíbula

Quinho zerou ao ver na avenida as estripulias dos moleques do seu Nenê. Todo serelepe contou para o amigo os malabares feitos com pandeiros. O amigo ganhou um amador tentou mas deixou cair. Ainda com o ritmo na mandíbula o pandeiro torto doado foi o suficiente.

Enchente

Sérgio , na rua beirando o rio, perpendicular a de sua mãe, passou e levou, ao ver Neyde , de shortinho do pijama se ajeitando pra sentar no degrau da porta, ao lado de uma criança. Parar ele não parou, só o tempo por um instante descompassou para ele fotografar um momento da bela, e, para mudar o curso de sua vida. Voltou, atravessou a rua, puxou assunto, logo Neyde abriu o largo sorriso e dilatou o coração de Sérgio, como ele costumava dizer, sobre a pretinha com quem se casaria com o consentimento do pai e de sua irmãzinha. Ele, com um pé no degrau: - tudo bem? - Já comeu? - Não! - Entra… Já pra dentro menina! - Aaah… - Senta… - Tá! - Vou fazer os pratos… - Quem é você?... - Deixa ele, aqui o seu… - Já lavou a mão? - Jaaaá!... - Sei, viu… Come! - Oremos… Amém! - Bom apetite! - Igual… Aceita se casar comigo? - Deus te dê uma boa sorte, meu filho, disse sua mãe fazendo o sinal da Cruz na testa. Casaram e, por ali mesmo, na casa do sogro, moraram nos três anos que nasceram os três ...